Recentemente eu passei por um episódio que considerei uma traição. Alguém de quem eu gostava muito, com quem eu convivi por muitos anos, que tinha como parceira agiu de uma maneira surpreendentemente desleal justamente em um momento em que eu estava terrivelmente fragilizado, desconsiderando tudo o que eu havia feito por ela ao longo dos últimos anos.
E foi um choque, e eu me entristeci profundamente. Porque o que piora o efeito da traição é a sensação de fracasso e de humilhação que vem junto com ela. Você constatar que se iludiu com aquela amizade, com aquele vínculo; que investiu afeto, preocupação, cuidado, consideração em uma relação que era verdadeira só para você.
Aí vem aquele desprezo por si mesmo, o que deixa tudo pior. Você sofre as consequências da traição e ainda fica se maltratando, se achando um idiota. Eu tentei racionalizar, busquei compreensão, aceitação dentro das minhas memórias e até encontrei razões plausíveis para o que aconteceu, mas eu adoeci.
Assim, o corpo sempre vai trazer uma correspondência relacionada ao tranco emocional que você leva. Somatizei, o corpo ficou ruim, a cabeça doia, o intestino desregulou, o sono não vinha. Agora esta melhorando, mas ainda não estou 100%.
Pode parecer patético um homem de 50 e tantos anos ter aprendido isso só agora mas a cada dia eu descubro que a gente não tem alternativa a não ser aprender com os solavancos da vida. E eu arrisco dizer que os solavancos são as provas que vão nos colocando mais maduros e menos egoístas. Não é fácil estar vivo aqui, lutando por subsistência, por trabalho, sendo ameaçados por violências, crueldades, vírus desconhecidos, ignorância, falta de empatia, de respeito. Viver nesse mundo é para maratonistas, que vão administrando a energia, repondo um pouco aqui e ali, gerenciando o cansaço e seguindo em frente.
Estar no mundo entre pessoas tão diferentes — para quem os valores de amizade, de profissionalismo, de afeto, etc., variam tanto – ou nem existem – é um trabalho árduo, é uma prova dificílima. Mas precisamos conviver, né?
E apesar disso tudo, das dificuldades, tem a música, tem a natureza, tem as belezas que comovem, tem a poesia, a arte, o humor… que vão fazendo a corrida mais leve, com mais sentido.
Esses dias eu assisti a um filme chamado “A Caça” (2012). É um drama psicológico dinamarquês de Thomas Vinterberg, com Mads Mikkelsen em uma de suas atuações mais marcantes. A história acompanha Lucas, um professor cuja vida é destruída após uma mentira infantil virar uma falsa acusação. O filme expõe o pânico moral, a mentalidade de manada e a fragilidade da verdade, deixando um impacto perturbador que permanece após os créditos.
Enquanto eu assistia ao filme eu entendi o quanto aquela história se assemelhava à história pela qual eu passei e em como uma fofoca aparentemente inocente dita por uma criança – no meu caso manipulada por uma adulta – pode arruinar uma relação de anos entre duas pessoas. Mas na verdade também se pode concluir que se algo tão pequeno foi suficiente para afetar uma relação tão longêva talvez, ou provavelmente, para uma das partes essa relação não fosse tão importante assim.